{"id":3237,"date":"2018-05-30T18:33:48","date_gmt":"2018-05-30T17:33:48","guid":{"rendered":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/?p=3237"},"modified":"2018-06-18T12:52:00","modified_gmt":"2018-06-18T11:52:00","slug":"burnout","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/?p=3237","title":{"rendered":"Faleceu o Doutor. Causa da Morte: O Trabalho. Culpados: Todos!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Hoje foi publicado no Observador um fant\u00e1stico artigo sobre o\u00a0<strong>Burnout<\/strong>\u00a0que \u00e9 definido por uma psiquiatra citada nessa publica\u00e7\u00e3o como\u00a0<strong>\u201cum esgotamento f\u00edsico e mental que est\u00e1 ligado ao exerc\u00edcio da profiss\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es desgastantes\u201d<\/strong>. Praticamente 14% das pessoas ativas em Portugal estavam em 2016 em situa\u00e7\u00e3o de burnout. Podemos simplificar sem pretens\u00e3o de um excessivo tecnicismo: Estavam esgotadas. Desligadas. Incapazes de fazer o que quer que fosse. Como um telem\u00f3vel que deixamos ir at\u00e9 ao fim da bateria e que se desliga completamente. 14%. Num grupo de 10 amigos entre 1 e 2 estavam nesta situa\u00e7\u00e3o. Mais de 50% das pessoas considera ser comum o stress no trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Julgo que e,\u00a0<\/strong>. E n\u00e3o estou a exagerar. A imposi\u00e7\u00e3o de um ritmo de trabalho a n\u00edveis de tal forma elevados que leva a pessoa ao esgotamento al\u00e9m de ser uma pr\u00e1tica desumana e causadora de um conjunto alargad\u00edssimo de doen\u00e7as \u00e9 potencial causadora da morte. Seja uma morte no m\u00e9dio\/longo prazo em virtude dessas doen\u00e7as seja no pr\u00f3prio curto prazo com o n\u00famero galopante de suic\u00eddios que t\u00eam acontecido. A OMS estima que existem mais suic\u00eddios que o n\u00famero de homic\u00eddios adicionado do n\u00famero de mortes em virtude de trag\u00e9dias naturais. N\u00e3o podemos tolerar nem mais um segundo a banaliza\u00e7\u00e3o da \u201cnoitada\u201d, o trabalho ao fim-de-semana de forma sistem\u00e1tica, enfim, a loucura da direta para acabar a porcaria de um projeto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se qualquer ser humano (sim estou a excluir uma boa parte de mentecaptos que n\u00e3o merecem esse r\u00f3tulo) considera que trabalhar 16 horas por dia \u00e9 um ritmo absolutamente infernal \u2013 e come\u00e7a, devagarinho, a aparecer uma consci\u00eancia de que est\u00e3o a passar todos os limites \u2013 creio que existem outros perigos maiores que esses que passam nos intervalos da chuva. Estou convencido que a maior parte dos problemas que levam a estas situa\u00e7\u00f5es de depress\u00e3o ou esgotamento n\u00e3o passam pelo excesso de trabalho mas por\u00a0<strong>condi\u00e7\u00f5es de trabalho absolutamente nojentas.<\/strong>\u00a0\u00c0s vezes at\u00e9 \u00e9 por falta de trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este artigo publicita um estudo que comprova isso mesmo:\u00a0<strong>41% do stress no trabalho \u00e9 causado pelo volume de trabalho<\/strong>. Mas, depois, 33% referem que a causa de stress \u00e9 a falta de apoio para o cumprimento das suas fun\u00e7\u00f5es, 16% falam da falta de oportunidade para gerir a pr\u00f3pria forma como trabalham e 23% apontam situa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio moral como estando na causa do stress.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As pessoas s\u00e3o humilhadas em frente de outros colegas.<\/strong>\u00a0Porque deram um erro de portugu\u00eas, porque n\u00e3o tomaram aten\u00e7\u00e3o a um e-mail, porque optaram por uma tonalidade de azul mais clara do que mais escura do 56.\u00ba power point que estavam a fazer. Porque naquele dia n\u00e3o levaram gravata para uma reuni\u00e3o. Porque s\u00e3o obrigadas a ficar com o rabo alapado a uma cadeira mesmo que n\u00e3o tenham trabalho nesse dia porque devem ser os primeiros a entrar e os \u00faltimos a sair. Isso tudo \u00e9\u00a0<strong>ass\u00e9dio moral.<\/strong>\u00a0E \u00e9 causa de burnout que \u00e9 causa de morte. Mas tamb\u00e9m a impossibilidade de se estabelecer o pr\u00f3prio hor\u00e1rio, obrigarmos as pessoas a entrarem e sa\u00edrem \u00e0s mesmas horas e a ficarem horas infind\u00e1veis no tr\u00e2nsito, a n\u00e3o poderem colocar uma tarde de folga para irem ver um tio que n\u00e3o visitam h\u00e1 muito ou para ir ver o teatro onde est\u00e1 o filho \u2013 mesmo que se comprometam a acabar a porcaria do projeto em casa \u2013 \u00e9 \u201cn\u00e3o darem oportunidade de gerir a forma como trabalham\u201d. E, sim, o chefe que insistentemente corrige tudo o que fazes, alterando v\u00edrgulas, alterando pontos finais, trocando as tuas palavras por sin\u00f3nimos, mesmo que te d\u00ea uma pancadinha nos ombros e diga que est\u00e1 tudo impec\u00e1vel e que era um problema de \u201cwording\u201d tudo isso \u00e9 causador de stress e de esgotamento. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 trabalhar muito! \u00c9 tudo isto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Burnout n\u00e3o \u00e9 uma coisa de um dia para o outro.<\/strong>\u00a0\u00c9 uma escala.\u00a0<strong>Passamos da excita\u00e7\u00e3o do novo trabalho at\u00e9 ao suic\u00eddio<\/strong>. O artigo fala de 12 pessoas de uma extremidade \u00e0 outra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-3231\" src=\"https:\/\/tiagomendonca.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/andy-tootell-59614-unsplash-1024x599.jpg\" alt=\"Burnout\" width=\"1024\" height=\"599\" srcset=\"https:\/\/tiagomendonca.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/andy-tootell-59614-unsplash-1024x599.jpg 1024w, https:\/\/tiagomendonca.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/andy-tootell-59614-unsplash-600x351.jpg 600w, https:\/\/tiagomendonca.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/andy-tootell-59614-unsplash-300x176.jpg 300w, https:\/\/tiagomendonca.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/andy-tootell-59614-unsplash-768x450.jpg 768w, https:\/\/tiagomendonca.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/andy-tootell-59614-unsplash-1300x761.jpg 1300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No passo um \u00e9 a necessidade de me destacar de ser melhor do que os outros. De ter que dar tudo. No passo quatro, \u00e9 o assumir de que o stress j\u00e1 se apoderou de n\u00f3s mas que \u00e9 uma inevitabilidade. Tenho de trabalhar para pagar contas. O que fa\u00e7o eu se me despedir? Mas eu consegui um emprego na \u00e1rea em que queria? Que diriam os meus pais se abandonasse o escrit\u00f3rio de advocacia ap\u00f3s tantos anos a cursar direito? N\u00e3o, o stress faz parte da minha vida e eu vou conseguir n\u00e3o cair. Vou aguentar. E todos n\u00f3s \u00e0 volta a dizer para o nosso amigo ser rijo e se aguentar. A ser\u00a0<strong>c\u00famplices desta auto-mutila\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos pontos 7, 8 e 9 o Sr. Dr come\u00e7a a dizer que s\u00f3 faz os m\u00ednimos. Entra e sai no hor\u00e1rio e nem mais um minuto. Come\u00e7a a responder mal e a colocar tudo em causa. Entra tarde, talvez ligue o computador e mande um e-mail aos colegas para ir tomar o pequeno-almo\u00e7o mal chegue. Mal acaba o hor\u00e1rio sai imediatamente. E n\u00e3o lhe pagam para ir bonito para o trabalho por isso come\u00e7a a desleixar. Mas \u00e0 volta, o que ouve \u00e9 que \u00e9 pregui\u00e7oso, \u00e9 que \u00e9 incr\u00edvel n\u00e3o trabalhar mais, \u00e9 que se est\u00e1 a desmazelar. Este ponto \u00e9 perigos\u00edssimo. \u00c9 o da despersonaliza\u00e7\u00e3o. Existe uma resigna\u00e7\u00e3o muito grande. Um deixa andar. Uma tristeza grande. Ainda alguma for\u00e7a. Ningu\u00e9m devia chegar a este ponto 7 ou 8 ou 9.\u00a0<strong>Mas quem chegue tem que ter for\u00e7a e apoio para se demitir nesse mesmo dia:<\/strong>\u00a0Dizer que n\u00e3o fica nem mais uma noite. Para mandar para um certo s\u00edtio o superior hier\u00e1rquico se necess\u00e1rio. Para dizer que n\u00e3o quer ser como ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O ponto 12 acaba muitas vezes em suic\u00eddio<\/strong>. Sem que ningu\u00e9m perceba \u201conde falhou\u201d. Aqui todos fazem um esfor\u00e7o. At\u00e9 v\u00e3o ver conversas antigas e perceber se existiu alguma pista. L\u00e1 descobrem. H\u00e1 3 anos, o Sr. Dr. at\u00e9 se queixou que \u201ctrabalha demais, mas tem de ser\u201d. Estaria no ponto 4. A partir da\u00ed ter\u00e1 sido uma escalada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Sr. Dr. morreu. A causa da morte foi o trabalho. E n\u00f3s fomos c\u00famplices.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje foi publicado no Observador um fant\u00e1stico artigo sobre o\u00a0Burnout\u00a0que \u00e9 definido por uma psiquiatra citada nessa publica\u00e7\u00e3o como\u00a0\u201cum esgotamento f\u00edsico e mental que est\u00e1 ligado ao exerc\u00edcio da profiss\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es desgastantes\u201d. 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