{"id":3071,"date":"2016-11-28T21:46:50","date_gmt":"2016-11-28T21:46:50","guid":{"rendered":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/?p=3071"},"modified":"2017-04-28T12:06:37","modified_gmt":"2017-04-28T12:06:37","slug":"tempo-livre-o-que-e-isso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/?p=3071","title":{"rendered":"Tempo Livre? O que \u00e9 isso? \u2013 11 meses de horror por um m\u00eas de f\u00e9rias. A nossa cenourinha."},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">Andamos a ver tudo ao contr\u00e1rio.<br \/>\nVamos imaginar que \u00e9 aceit\u00e1vel \u2013 isso daria para mil outros post\u2019s \u2013 trabalhar oito horas por dia. Ou melhor, porque assim \u00e9 que deveria ser colocada a quest\u00e3o ter oito horas do meu dia alocadas ao trabalho.<br \/>\nNesta contabiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio que temos de contar o tempo que perdemos a transportar-nos para o trabalho e, em alguns casos, a ficarmos especialmente vestidos para o trabalho que vamos desenvolver. \u00c9 \u00f3bvio que o momento do almo\u00e7o n\u00e3o \u00e9 um momento livre e de liberdade porque vou ter de estar a almo\u00e7ar num s\u00edtio que possivelmente n\u00e3o quero e com pessoas que n\u00e3o quero. E, claro, tenho que contabilizar o tempo que volto a regressar a casa para fazer aquilo que me apetece.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Imaginando um tempo m\u00e9dio de 1h30 para almo\u00e7o e 1h30 para transportes, n\u00e3o faz sentido mais de 5 horas no escrit\u00f3rio. (Ali\u00e1s, est\u00e1 provado que por cada 8 horas apenas 3 s\u00e3o produtivas).<br \/>\nSe assim for o hor\u00e1rio de trabalho poderia bem ser 9h30 sair de casa e chegar as 10h15, trabalhar 3 horas at\u00e9 \u00e0s 13h15, almo\u00e7ar at\u00e9 \u00e0s 14h45 e sair \u00e0s 16h45, admitindo que se voltaria a estar em casa \u00e0s 17h30. E dessa forma estar-se-ia a cumprir o pressuposto 8\/8\/8 (oito horas de sono, oito horas alocadas a trabalho, oito horas de lazer).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Aqui entra um segundo problema: N\u00f3s consideramos que tirar uma hora por dia para escrever uns textos, uma hora por dia para ler um livro, uma hora por dia para ir ao gin\u00e1sio ou uma hora por dia para jogar um v\u00eddeo-jogo s\u00e3o hobbies. Uma esp\u00e9cie de b\u00f3nus que podemos ter como troca da obedi\u00eancia \u00e0 disciplina e ao rigor do trabalho. N\u00e3o faz sentido. Ler um livro \u00e9 absolutamente fundamental no processo de evolu\u00e7\u00e3o humana. Como o \u00e9 qualquer outro meio de enriquecimento cultural. Fazer desporto uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica. Ter tempo para simplesmente conversar com a fam\u00edlia algo absolutamente priorit\u00e1rio. Porque \u00e9 que deve ser considerado mais importante responder ao cliente X hoje \u2013 quando ele pode ter a resposta perfeitamente depois de amanh\u00e3 \u2013 em vez de irmos correr? Porqu\u00ea que hierarquizamos desta forma as coisas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">O que n\u00f3s fazemos \u00e9 algo bem diferente: Sair de casa cedinho pelas 8h para entrar no trabalho \u00e0s 9h ficar por l\u00e1 at\u00e9 as 13h, em condi\u00e7\u00f5es normais conseguir ir almo\u00e7ar at\u00e9 \u00e0s 14h30 nas imedia\u00e7\u00f5es do local de trabalho e com os colegas de trabalho, regressar \u00e0s 14h30 e ficar, em dias normais, at\u00e9 \u00e0s 19h. Voltamos a chegar a casa \u00e0s 20h, fazemos o jantar at\u00e9 \u00e0s 20h45, e acabamos de jantar 21h30. Arrumar a cozinha e lavar a loi\u00e7a s\u00e3o 22h. Se nos tivermos de levantar \u00e0s 7h30, significa que apenas poderemos ficar acordados \u2013 no m\u00e1ximo mais duas horas. Mas estamos, de facto, t\u00e3o cansados, que n\u00e3o vamos ter tempo \u201clivre\u201d. N\u00e3o temos capacidade de ir ler um livro, de ir \u00e0 reuni\u00e3o do partido, de ir correr, de ir visitar um amigo. Vamos, provavelmente, esparramar no sof\u00e1 e consumir duas ou tr\u00eas s\u00e9ries sem qualquer sentido e limitarmo-nos a recuperar energias para voltarmos a trabalhar no dia seguinte. N\u00e3o \u00e9 tempo livre. \u00c9 ainda tempo de trabalho porque \u00e9 essencial para podermos retomar ao trabalho (P.S. \u2013 n\u00e3o coloquei nesta hip\u00f3tese o que representaria na gest\u00e3o di\u00e1ria ter, por exemplo, um lindo casal de filhotes\u2026).<br \/>\nO que a maioria das pessoas fazem \u00e9 simplesmente trabalhar (reparem que falei num hor\u00e1rio 9h-19h com 1h30 de almo\u00e7o). N\u00e3o t\u00eam qualquer tempo livre. Em limite o fim-de-semana \u2013 quando n\u00e3o surge algo extra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00f3 que ap\u00f3s cinco dias desta rota\u00e7\u00e3o o s\u00e1bado \u00e9 o dia de recuperar a s\u00e9rio as energias. Fica-se at\u00e9 mais tarde na cama, porque ganhamos qualquer coisa vamos dar ao luxo de ir tomar o pequeno almo\u00e7o fora. E \u00e9 aqui que vamos ter que fazer um conjunto de coisas que ficaram por fazer durante a semana: Ir comprar uma roupa, ir pagar umas contas, responder a uns e-mails, ir ao IKEA tratar da mesinha de cabeceira que j\u00e1 se fala h\u00e1 meses. O Domingo, sim, \u00e9 o dia livre. Normalmente o dia da fam\u00edlia. Mas a verdade \u00e9 que quando chega ali a meio da tarde j\u00e1 estamos com uma certa dor de barriga, uma n\u00e1usea, uma tristeza inexplic\u00e1vel porque sabemos que segunda come\u00e7a tudo de novo. Um certo p\u00e2nico da segunda-feira. Que tem como correlativo uma histeria das sextas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">De facto, como j\u00e1 escrevi aqui outras vezes, n\u00f3s andamos a fazer um p\u00e9ssimo neg\u00f3cio: Andamos a trocar 11 meses de infelicidade por 1 m\u00eas de f\u00e9rias pagas. Uma esp\u00e9cie de cenourinha em frente dos burritos. M\u00eas esse onde nos vingamos do mundo. Enchemos o nosso feed de fotos de \u00e1guas clarinhas, e descarregamos nos trabalhadores sazonais as nossas frustra\u00e7\u00f5es do ano inteiro. \u00c9 a nossa vingan\u00e7a contra o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Existem v\u00e1rias raz\u00f5es para a maioria das pessoas n\u00e3o quererem, de facto, romper com isto.<br \/>\n&#8211; Uma delas \u00e9 porque d\u00e1 trabalho. Muito mais trabalho do que fazer a mesma coisa todos os dias \u00e0 frente de um computador \u2013 cuja utiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 em 50% para ver os desportivos. Uma vez. E outra. E outra. Desde que tenho o meu projeto pessoal trabalho muito mais, mas mesmo muito mais, do que no escrit\u00f3rio de advogados. Estou \u00e9 menos tempo no escrit\u00f3rio.<br \/>\n&#8211; A segunda raz\u00e3o \u00e9 porque n\u00f3s nos temos em m\u00e1 conta. Ah, isso n\u00e3o \u00e9 para ti. Ah, se isso fosse bom j\u00e1 outra pessoa o teria feito. Ah, isso \u00e9 um grande risco. N\u00f3s achamos que estamos destinados a estar neste ciclo. Existe uma quest\u00e3o cultural.<br \/>\n&#8211; A outra \u00e9 a propalada estabilidade. Como se pudesse ser mais est\u00e1vel dependermos de outra pessoa do que de n\u00f3s pr\u00f3prios. Isto \u00e9 o maior mito de sempre. Se eu trabalhar numa empresa estarei sempre dependente a que o empres\u00e1rio um dia acorde e diga: \u201cHuuum, quero mandar tudo \u00e0 fava. Vou ser pescador de bacalhau na Noruega. Adeus\u201d. E pronto, estou despedido. Mas mesmo n\u00e3o sendo t\u00e3o radical, a verdade \u00e9 que n\u00e3o fa\u00e7o puto de ideia se as coisas v\u00e3o bem ou mal na empresa. Se for ser o pr\u00f3ximo a ser despedido ou n\u00e3o.<br \/>\n&#8211; O estatuto. \u00c9 melhor ser \u201ceconomista na empresa X\u201d, \u201cadvogado no escrit\u00f3rio Y\u201d, do que fazer qualquer outra coisa que seja dif\u00edcil de explicar. Nos casamentos e nos anivers\u00e1rios \u00e9 mais prestigiante ficar-se agarrado a essa profiss\u00e3o.<br \/>\n&#8211; E por fim as tais cenouras: Ah, sempre tens f\u00e9rias pagas. Ah, tens aqui este dinheirinho para estoirares em prendas de natal e te ajudar nessa tal cenoura que s\u00e3o as f\u00e9rias.<br \/>\nEnfim, demorei 30 ou 35 minutos a escrever isto. \u00c9 mais importante\/gratificante\/estimulante do que 90% das coisas que se fazem num escrit\u00f3rio. Porque raz\u00e3o tem que ser visto como um \u201chobbie\u201d no sentido de ser um extra \u00e0 vida \u201cnormal\u201d? N\u00e3o consigo compreender. Est\u00e1 tudo ao contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00f3s dev\u00edamos trabalhar na exata medida do necess\u00e1rio para conseguirmos fazer o manancial de coisas mais importantes que temos que fazer. Pelo contr\u00e1rio andamos a trabalhar de maneira louca na expetativa que nos sobrem cinco minutos para fazer essas coisas mais importantes. \u00c9 estranho. E perigoso!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andamos a ver tudo ao contr\u00e1rio. Vamos imaginar que \u00e9 aceit\u00e1vel \u2013 isso daria para mil outros post\u2019s \u2013 trabalhar oito horas por dia. Ou melhor, porque assim \u00e9 que deveria ser colocada a quest\u00e3o ter oito horas do meu dia alocadas ao trabalho. 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