{"id":3010,"date":"2016-11-28T19:53:26","date_gmt":"2016-11-28T19:53:26","guid":{"rendered":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/?p=3010"},"modified":"2017-04-28T11:13:02","modified_gmt":"2017-04-28T11:13:02","slug":"porque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/?p=3010","title":{"rendered":"Porqu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">Quando eu era pequeno a minha m\u00e3e comprava-me sempre os livros da cole\u00e7\u00e3o \u201cPorque Ser\u00e1 que\u2026\u201d. Cada livro abordava uma determinada \u00e1rea, por exemplo, porque ser\u00e1 que as flautas t\u00eam buracos e outras perguntas sobre m\u00fasica ou porque ser\u00e1 que a barriga faz barulho e outras perguntas sobre o meu corpo. Talvez isso tenha contribu\u00eddo decisivamente para o facto de estar sempre a questionar tudo e a n\u00e3o me resignar com verdades definitivas, ideias preconcebidas ou estradas de caminho \u00fanico. Tenho uma enorme dificuldade para aceitar tudo aquilo que n\u00e3o consigo compreender e sou incapaz de aceitar uma resposta do g\u00e9nero: \u201c\u00c9 assim porque eu quero, ou penso isto porque sim\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Li como j\u00e1 escrevi aqui o livro \u201cQuem mexeu no meu queixo\u201d e li agora o \u201cFui eu quem mexi no teu queijo\u201d. Na primeira f\u00e1bula trata-se de aceitar a mudan\u00e7a e o facto de permanentemente o queixo estar a mudar de s\u00edtio no segundo livro questionava-se quem e porque motiva\u00e7\u00f5es o queixo teria sido mudado. Muitos observam o segundo livro como uma cr\u00edtica ou um rebate ao primeiro a mim pareceram-me complementares. Aconselho ambos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ao longo de muitas conversas tenho experimentado que as pessoas t\u00eam uma enorm\u00edssima dificuldade em responder \u00e0 simples pergunta: Porqu\u00ea?. Uma esmagadora maioria das pessoas n\u00e3o consegue responder ou responde de forma pouco clara e imprecisa. Tenho tamb\u00e9m reparado que o sucesso costuma acompanhar quem consegue responder com maior facilidade a essa pergunta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">No outro dia conversava com uma professora que me dizia que n\u00e3o raras vezes os alunos dizem que querem ter um 20 ou um 19 mas que poucos s\u00e3o aqueles que conseguem explicar a raz\u00e3o pela qual querem ter essa classifica\u00e7\u00e3o. Muitas vezes pergunto aos alunos que acompanho o que querem fazer com a licenciatura, o que planeiam fazer depois do curso, qual \u00e9 a import\u00e2ncia da m\u00e9dia. E tenho observado duas tend\u00eancias. Alguns n\u00e3o t\u00eam qualquer ideia do que pretendem fazer a seguir. Isso \u00e9 meio caminho andado para o insucesso. Considero extraordinariamente dif\u00edcil motivar-me para percorrer 25 km sen\u00e3o sei qual \u00e9 o objetivo desses 25km (pode ser apenas descontrair \u2013 jogo FM com nenhum objetivo a n\u00e3o ser lazer\u2026). Outros t\u00eam uma ideia t\u00e3o estanque que quando as coisas n\u00e3o correm dentro do estreito espa\u00e7o que delinearam acabam por colapsar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Considero que \u00e9 muito importante reportarmo-nos a objetivos. V\u00e1rios de prefer\u00eancia e em \u00e1reas muito diferentes. A falta de um objetivo torna imposs\u00edvel o sucesso na medida em que provavelmente vamos caminhar em c\u00edrculos sem qualquer rumo. Por outro lado, existem um conjunto de pessoas \u2013 talvez a maioria \u2013 que est\u00e1, vou dizer assim, descalibrada. Quer dizer, centram o foco em meios de atingir objetivos e n\u00e3o em objetivos. O caso cl\u00e1ssico do dinheiro. Existem pessoas cujo objetivo de vida \u00e9 enriquecer mas n\u00e3o t\u00eam qualquer objetivo no que fazer com o dinheiro. Os euros s\u00e3o apenas uma forma de satisfazermos as nossas necessidades. Podemos assumir com que mais dinheiro vamos satisfazer mais necessidades ou satisfazer melhor as mesmas necessidades. Mas temos que saber o que queremos! Enriquecer por enriquecer n\u00e3o significa grande coisa. Imaginemos que uma pessoa tem que dormir seis horas por dia. Se trabalhar por sistema 18 horas por dia que lhe adianta ter na conta 500.000\u20ac? Existe ainda um terceiro conjunto de pessoas cujos objetivos que determina n\u00e3o passaram pelo crivo do \u201cPorqu\u00ea\u201d. S\u00e3o aceites de forma acr\u00edtica sem qualquer an\u00e1lise, r\u00e1pida que seja, de se esses objetivos s\u00e3o ou n\u00e3o adequados \u00e0 sua ideia de felicidade. Aqui, destaco os filhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">No outro dia lia uma not\u00edcia que foi feita uma investiga\u00e7\u00e3o de que o impulso natural das mulheres ao contr\u00e1rio do que se pensava n\u00e3o \u00e9 o da maternidade ou da constitui\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia. Porque ser\u00e1 que talvez 99% dos casais optem por ter filhos? Ser\u00e1 de acreditar que 99% dos casais tenham uma enorme e esclarecida vontade de ter um filho com tudo o que isso implica? Ser\u00e1 que se fosse poss\u00edvel \u2013 perdoe-me o leitor a crueza \u2013 de tomar essa decis\u00e3o com todos os dados em cima da mesa os n\u00fameros continuariam a ser o mesmo? Ou ser\u00e1 que essa decis\u00e3o por se ter banalizado \u2013 existe uma enorme (e fundada, pela necessidade de preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie) press\u00e3o social para ter filhos \u2013 tornou-se numa das tr\u00eas ou quatro decis\u00f5es de vida que nem se pensam? N\u00e3o me custa admitir que para uma parte muito significativa das pessoas ter filhos seja um objetivo definido de forma livre e esclarecida. Mas, ser\u00e1 poss\u00edvel que seja para a percentagem de pessoas que hoje t\u00eam filhos? Ou ser\u00e1 que \u00e9 na falta da capacidade de definir objetivos as pessoas se agarram aquelas que a sociedade oferece (monogamia, carreira, filhos, etc.)? Ser\u00e1 que se a decis\u00e3o passasse por todos os crivos do \u201cPorqu\u00ea\u201d n\u00e3o passar\u00edamos de uma propor\u00e7\u00e3o de 99-1 de casais com e sem filhos (por op\u00e7\u00e3o) para algo como 50-50?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">A maioria das pessoas \u00e0s quais pergunto qual \u00e9 o objetivo no curso dizem-me: \u201cTer uma m\u00e9dia igual ou superior a 14\u201d. A segunda pergunta \u00e9 necessariamente esta: \u201cPara qu\u00ea?\u201d. Aqui muitas pessoas j\u00e1 n\u00e3o respondem. Como se conseguem motivar para essa m\u00e9dia sen\u00e3o sabem para que a querem? Outros dizem (doce ingenuidade\u2026): Para entrar numa grande sociedade. \u00c9 um objetivo que considero interm\u00e9dio. A minha fotografia num site de uma grande firma de advogados n\u00e3o me traz qualquer felicidade a n\u00e3o ser que seja um snob. Pergunto: Porqu\u00ea uma grande sociedade? E normalmente neste momento j\u00e1 muito pouca gente responde. Alguns alvitram: Para ganhar bem (mais uma vez, doce ingenuidade). Se arriscar um: Ganhar bem para qu\u00ea? Ficarei provavelmente a falar sozinho.<br \/>\nEsta incapacidade de definir objetivos \u2013 porque n\u00e3o se responde a estas perguntas b\u00e1sicas \u2013 leva a que as pessoas fiquem completamente obcecadas para \u201ccomprarem\u201d um plano de vida que as normas sociais desenharam. S\u00f3 que se trata de um fato que obviamente vai ficar desajustado. Pode acontecer que algu\u00e9m se realize dessa forma, mas muitas pessoas v\u00e3o sentir mais cedo ou mais tarde que aquelas op\u00e7\u00f5es n\u00e3o se traduzem em felicidade para aquela pessoa concreta. E isso \u00e9 f\u00e1cil de compreender. \u00c9 que todos somos, por natureza, anormais. Fugimos \u00e0 norma. Mas s\u00f3 estamos bem se nos agarrarmos \u00e0 norma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Qual \u00e9 o grau de satisfa\u00e7\u00e3o que me d\u00e1 ver um Manchester United \u2013 Southampton \u00e0s 3 da tarde de um s\u00e1bado? Qual \u00e9 o grau de satisfa\u00e7\u00e3o que isso dar\u00e1 \u00e0 minha m\u00e3e? Eu adoro Guacamole, a Mariana odeia. A Mariana prefere pipocas doces eu salgadas. O meu irm\u00e3o joga muito bem \u00e0 bola, eu jogo muito mal. O meu pai resolve qualquer problema que possam imaginar que se passe numa casa. Eu n\u00e3o sei abrir o capot do carro. Tenho uma aluna que gosta de se levantar \u00e0s seis da manh\u00e3 e estuda bem \u00e9 pela fresquinha. Outros preferem mergulhar a noite dentro. O meu amigo Jorge \u00e9 do Sporting, o meu amigo Miguel \u00e9 do Porto e eu sou do Benfica. O Jorge e a C\u00e1tia tiveram o bolo de casamento ap\u00f3s o jantar j\u00e1 o dia era longo. A Marta e o Diogo tiveram logo \u00e0 sa\u00edda da igreja. E o Miguel e a Rita nem quiseram o t\u00edpico bolo de noiva e tiveram uns \u00f3timos brigadeiros. Somos todos muito diferentes! O que nos faz feliz \u00e9 imensamente diferente. Os nossos porqu\u00eas s\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Devemos sempre colocar em quest\u00e3o as nossas a\u00e7\u00f5es. Devo ou n\u00e3o aceitar aquela proposta de emprego? A resposta torna-se f\u00e1cil se nos perguntarmos qual \u00e9 a raz\u00e3o pela qual eu quero ou preciso daquele emprego. E a resposta nunca pode ser porque preciso do dinheiro porque o dinheiro \u00e9 um meio, n\u00e3o \u00e9 um objetivo. Eu preciso dinheiro para concretizar sonhos. Por isso eu devo aceitar aquele emprego se aquela forma melhor forma de concretizar esse sonho. Eu quero ter um curso muito abrangente que me permita despertar para \u00e1reas diversas: Direito parece-me bem. Eu quero tirar Direito para ser rico \u00e9, al\u00e9m de uma mentira, um n\u00e3o objetivo. Ou quero tirar Direito porque ainda vai tendo sa\u00edda, ou porque ser advogado d\u00e1 estatuto. Isso vai levar a que a prazo exista uma desconformidade entre a nossa vida e a nossa felicidade. Esse conflito levar\u00e1 a um clima depressivo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por aqui criei um campeonato de tarefas dom\u00e9sticas com a Mariana \u2013 ali\u00e1s copiado selvaticamente da Rita e do Miguel. Cada tarefa tem uma pontua\u00e7\u00e3o e no final do m\u00eas quem perder deposita uns euros correspondentes aos pontos de diferen\u00e7a para uma poupan\u00e7a com determinado objetivo. Essa pequena competi\u00e7\u00e3o \u2013 com um objetivo bem definido (comparticipar o menos poss\u00edvel a poupan\u00e7a comum) e a pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o desse mesmo objetivo \u2013 pode ser uma viagem, um workshop, um eletrodom\u00e9stico, um jantar a dois\u2026 &#8211; levou a que cada eu me esfor\u00e7asse muito mais e fizesse muito mais coisas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Acabei o texto. O que vou fazer a seguir? Estender a roupa. Porqu\u00ea? Bem\u2026voc\u00eas j\u00e1 sabem <span class=\"_47e3 _5mfr\" title=\"wink emoticon\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img\" src=\"https:\/\/www.facebook.com\/images\/emoji.php\/v8\/f57\/1\/16\/1f609.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu era pequeno a minha m\u00e3e comprava-me sempre os livros da cole\u00e7\u00e3o \u201cPorque Ser\u00e1 que\u2026\u201d. Cada livro abordava uma determinada \u00e1rea, por exemplo, porque ser\u00e1 que as flautas t\u00eam buracos e outras perguntas sobre m\u00fasica ou porque ser\u00e1 que a barriga faz barulho e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3108,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[33],"tags":[36,35,37],"class_list":["post-3010","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-happy-life","tag-empreendedorismo","tag-happy-life","tag-porque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3010","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3010"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3010\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3111,"href":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3010\/revisions\/3111"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3108"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tiagomendonca.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}